O Supremo Tribunal dos EUA decidiu que o Presidente pode destituir, à vontade, comissários da Comissão Federal de Comércio (FTC), derrubando a proteção legal de destituição “por justa causa” da agência em Trump v. Slaughter. A decisão considerou que as proteções de destituição da FTC violam a separação de poderes prevista na Constituição, porque a agência exerce autoridade executiva enquanto limita o controlo presidencial. O acórdão desmonta um modelo de independência regulatória estabelecido em Humphrey's Executor v. United States, em 1935, e cria potenciais implicações para outras agências independentes, incluindo a Securities and Exchange Commission e a Commodity Futures Trading Commission.
O caso começou depois de o Presidente Donald Trump remover a comissária da FTC Rebecca Slaughter sem invocar os fundamentos legais de ineficiência, negligência no dever ou má conduta no exercício do cargo. A administração defendeu que o Presidente tinha autoridade constitucional, ao abrigo do Artigo II, para destituir comissários que exercem poder executivo. O presidente do Supremo, John Roberts, escreveu para a maioria, afirmou que a FTC administra mais de 80 diplomas legais, emite regulamentos, conduz investigações, insta processos de fiscalização e procura sanções. O Tribunal concluiu que esses poderes são de natureza executiva e não podem ficar blindados contra a destituição presidencial.
A decisão atinge profundamente Humphrey's Executor, a decisão de 1935 que permitiu ao Congresso proteger os comissários da FTC contra destituição, exceto por justa causa. Esse caso tornou-se a base do modelo moderno de agência independente, no qual comissões com vários membros podem operar com alguma proteção face ao controlo direto da Casa Branca. O Supremo Tribunal, em Trump v. Slaughter, decidiu que a proteção de destituição por justa causa da FTC viola a separação de poderes da Constituição.
A decisão não decide diretamente a legalidade das proteções de destituição na SEC ou na CFTC. Ambas as agências exercem poderes que se assemelham aos descritos pelo Tribunal: produção normativa (rulemaking), investigações, processos administrativos e litígios federais. A lógica do acórdão aplica-se a agências que combinam funções de produção normativa, supervisão e enforcement. Empresas financeiras, bolsas (exchanges), empresas de cripto e advogados de enforcement estão a estudar o parecer porque tanto a SEC como a CFTC operam sob estruturas de agência independente semelhantes, com proteções de destituição dos comissários.
A maioria baseou-se na consignação, pela Constituição, do poder executivo ao Presidente e defendeu que os titulares encarregados de executar a lei federal devem manter-se responsáveis perante ele. Roberts escreveu que o Presidente não pode ser responsabilizado pela execução fiel das leis se não puder destituir os responsáveis que executam essas leis. A decisão representa uma aplicação importante da teoria do Executivo unitário, que defende que a autoridade executiva deve permanecer sob controlo presidencial. O Tribunal rejeitou a ideia de que a especialização técnica ou estruturas de comissão bipartidárias possam justificar o isolamento do poder executivo face ao Presidente eleito.
A juíza Sonia Sotomayor apresentou um voto de vencido, acompanhado pelas juízas Elena Kagan e Ketanji Brown Jackson. O voto de vencido alertou que a decisão desmonta proteções de longa data concebidas para impedir que reguladores independentes se tornem instrumentos políticos diretos da Casa Branca. A minoria de três juízes argumentou contra a interpretação da maioria sobre a autoridade presidencial de destituição ao abrigo do Artigo II.
O Tribunal não declarou todas as agências independentes inconstitucionais. A maioria deixou em aberto, de forma específica, questões envolvendo a Reserva Federal e certos tribunais não abrangidos pelo Artigo III. Essa distinção é importante porque a independência da política monetária é tratada de forma diferente das funções de enforcement e de proteção dos consumidores da FTC. O parecer cria incerteza para agências que combinam produção normativa, supervisão e enforcement, já que as empresas financeiras podem ver novas oportunidades para contestar ações da agência quando as proteções de destituição possam ser enquadradas como limites inconstitucionais à autoridade presidencial.
O que decidiu o Supremo Tribunal em Trump v. Slaughter?
O Supremo Tribunal decidiu que o Presidente pode destituir, à vontade, comissários da Federal Trade Commission, derrubando a proteção legal de destituição “por justa causa” da agência. O Tribunal considerou que as proteções de destituição da FTC violam a separação de poderes da Constituição, porque a agência exerce autoridade executiva enquanto limita o controlo presidencial.
Como é que a decisão de Trump v. Slaughter afeta a SEC e a CFTC?
A decisão não decide diretamente a legalidade das proteções de destituição na SEC ou na CFTC, mas ambas as agências exercem poderes semelhantes aos da FTC, incluindo produção normativa, investigações, processos administrativos e litígios federais. A lógica do acórdão aplica-se a agências que combinam funções de produção normativa, supervisão e enforcement, criando incerteza quanto ao estatuto constitucional das suas proteções de destituição dos comissários.
O Supremo Tribunal abordou a independência da Reserva Federal?
O Tribunal deixou, de forma específica, em aberto questões envolvendo a Reserva Federal e certos tribunais não abrangidos pelo Artigo III. A maioria não declarou todas as agências independentes inconstitucionais e distinguiu a independência da política monetária das funções de enforcement e de proteção dos consumidores da FTC.
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